Cibertúlia

Um guia sem postais ilustrados

Não se engane o leitor: esta Volta a Portugal, com um ciclista vitorioso na capa, que Álvaro Domingues retratou em palavras e imagens, não nos traz um pelotão de ciclistas a subir à Torre ou à Senhora da Graça, mas sobe à Serra da Estrela e plana pelas terras da Ria de Aveiro, desce do Minho ao Algarve e salta às ilhas.

Domingues viaja pelo país de bicicleta ou no Google Earth. A parábola da Volta (aquela que se faz em bicicleta iniciou-se em 1927) ajuda o autor a compor e a decompor o “imaginário poderoso” e a “mitologia de lugares” de que se fazem imagens e representações da geografia de Portugal. Não há postais ilustrados aqui.

A globalização, explica-nos Domingues, parece ter acelerado o tempo, aumentando a tensão e a ansiedade sobre a própria paisagem e, no país de hoje, a paisagem urbana e a rural explodiram, numa amálgama que estilhaça a “geografia mítica da Nação” e “algumas ideias assentes sobre Portugal tão uno na sua individualidade nacional, e tão variado nas suas expressões de vida e beleza”.

Não se assuste o leitor: Álvaro Domingues pedala nesta Volta a Portugal, não esquecendo a terra e procurando apresentar o retrato de um imaginário geográfico. É uma viagem que vale a pena. O autor, geógrafo, e doutorado em Geografia Humana, quase oblitera humanos da paisagem, mesmo que a sua presença esteja omnipresente. As fotografias têm legendas, mas omitem a sua localização, como se toda a paisagem fosse de todos os lugares.

“Sob a paleta genérica da metamorfose profunda do país rural e da mágoa da sua perda, persiste uma jazida imensa de imagens emaranhadas em filões variados e contrastantes que, de tão diversos ao nível local e regional, comprometem a própria visibilidade da questão ao nível nacional — o todo que nunca houve vai-se perdendo na pulverização das suas peças. Desta superabundância de casos resulta um aturdimento geral que tudo confunde.”

Não se confunda o leitor: Álvaro Domingues, nos seus textos, ou os muitos poetas, escritores, académicos, de que se socorre o autor, organiza uma Volta a Portugal que tenta guiar-nos por entre “o mosaico das suas diversidades, as contradições e os contrastes que percebemos na rapidez das mudanças recentes a que assistimos aqui e ali” e responder aos “consensos sobre o imaginário geográfico do País” que escasseiam.

A fealdade de lugares pode levar o leitor a não encontrar empatia no olhar destas paisagens, mas acaba por reconhecer um certo tipo de beleza na composição de anacronismos no espaço, das ruínas coloniais por entre árvores a alminhas nas esquinas, de jardins de pedra a chaminés que se intrometem na planície, na salganhada de telhados e painéis solares que desaguam no campo ou por entre blocos de prédios dispostos de forma errática, até ao “Minho tropical romântico de torna-viagem” ou pombais que se assenhoreiam de um lugar.

 

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A obra de Álvaro Domingues (que mantém na sua conta no Facebook um registo idêntico de fotografias) nota que “as geografias mentais de Portugal e as suas memórias colectivas encontram-se em profunda transformação” e desvela-nos, de forma muito provocadora este território de “aldeias típicas”, “centros históricos”, “paisagens sem identidade fixa, sem memória”, “paisagens ordinárias, amnésicas ou genéricas como os medicamentos sem marca”.

O autor e geógrafo não prescreve uma receita, algum medicamento servirá melhor que outros, mas na observação cáustica e irónica de Álvaro Domingues há um olhar profundo sobre a necessidade de melhor vermos e cuidarmos o território, em direção a “um ponto de equilíbrio ou estabilidade”. As eleições autárquicas de outubro passado deviam ter tido como roteiro obrigatório esta Volta a Portugal. E este é um belo livro de bolso para autarcas de como (não) fazer.

 

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Volta a Portugal
Álvaro Domingues
Contraponto, 2017
328 pp, 19,90€.

 

[texto originalmente publicado no 7Margens, a 12 de outubro de 2025, com ligeiras adaptações; fotos © Álvaro Domingues, e capa do livro]

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