Cibertúlia

A trindade do horror: como Putin, Xi e Kim se perpetuam no poder

A ilustração da capa deste livro A Dança dos Ossos não é ficção: a 3 de setembro de 2025, o Presidente chinês, Xi Jinping, chegou à Porta de Tiananmen, em Pequim, acompanhado dos líderes da Rússia e da Coreia do Norte, Vladimir Putin e Kim Jong-un, para assinalar o 80.º aniversário do fim da Segunda Guerra Mundial. Uma trindade do horror.

Cada um destes três líderes é visto a partir do lugar de poder que ocupam, usando a História e abusando da falsificação e da manipulação das histórias dos seus países, para melhor controlar os povos que dirigem de forma autocrática e ditatorial. “Quem controla o passado controla o futuro; quem controla o presente controla o passado”, escreve George Orwell, citado na epígrafe do livro.

“A dança dos ossos” refere-se à manipulação política: em contextos políticos, nomeadamente à forma como os líderes, particularmente os autoritários, distorcem e modelam as narrativas históricas — até mesmo as “mentiras descaradas” — para servir a sua agenda política e justificar o governação atual.

Livro político do ano, em 2022, para os jornais Financial Times, Sunday Times e BBC History Magazine, a jornalista Katie Stallard apresenta-nos, nesta obra de fôlego, uma viagem que tem tanto de fascinante, como de assustadora: os destinos da China, Coreia do Norte e Rússia não são dissociáveis do estado do mundo, num tempo em que o Presidente dos Estados Unidos da América, Donald Trump, fica despeitado e invejoso por não estar em Pequim, lado a lado com os três ditadores.

 

A Dança dos Ossos

 

A desinformação e as fake news não são uma invenção de hoje, nem exclusiva de regimes autoritários, mas em pleno século XXI, em que se vive num ambiente saturado de informação, o joio faz as vezes do trigo e o gato é comido por lebre, com muitos a acreditar e aqueles que lutam pela verdade, acabam presos, exilados ou mesmo mortos. Por exemplo, a história da Segunda Guerra Mundial é reescrita em função dos interesses do poder. Putin decretou que a Rússia “precisava mais dos seus mitos e dos seus heróis do que da verdade” (p. 202).

Também na Coreia do Norte, a ficção entranha-se na realidade, e a dinastia Kim governa com os pés assentes em mentiras sucessivas, dos locais de nascimento ao envolvimento dos líderes nos esforços de guerra, seja a Segunda Guerra Mundial, seja a Guerra da Coreia. “Os relatos verdadeiros dos combates, por mais inocentes que fossem, ameaçavam comprometer a versão oficial dos acontecimentos” (p. 165). Para que não haja dúvidas, a desinformação (em anos muito anteriores à internet e às redes sociais) fazia-se de gigantescas edições: “Entre 1957 e 1960, foram impressos mais de 95 milhões de exemplares de livros sobre o movimento de guerrilha”, ou seja, como constatou o historiador Andrei Lankov, “nove livros por cada homem, mulher e criança do país” (p. 162).

Na Rússia, tal como na China e Coreia do Norte, nota Katie Stallard, “a liderança reconheceu o poder da guerra passada para mobilizar o apoio da opinião pública e reivindicar uma posição moral de destaque”. Por isso, na ocupação russa da Crimeia em 2014, Putin apresenta-se como o defensor da paz e a proteger os russos, perante a “ameaça fascista” da Ucrânia. “Tal como tinham derrotado Hitler em 1945 e salvado o mundo do fascismo, também se oporiam à ascensão desta nova ameaça fascista” (p. 180). O passado a justificar (ou a limpar) os crimes de hoje.

Como sintetiza Stallard, Xi Jinping utilizou o passado na China “para contextualizar os desafios contemporâneos do país e demonstrar a necessidade da sua liderança, afirmando estar a alcançar vitória após vitória e a liderar a luta contra os inimigos, tal como os seus antecessores haviam feito em conflitos anteriores” (p. 269). São vitórias que mergulham estas sociedades em regimes sem liberdades, e em que qualquer assomo de dissidência é punido de forma absoluta.

 

A Dança dos Ossos

Katie Stallard, tradução de Sara Veiga.
Livros Zigurate, 2024
328 pp, 23,20€.

[texto originalmente publicado no 7Margens, a 2 de outubro de 2025; imagem: pormenor da capa do livro]

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